Um menino com muito para dizer


Por Sidney Gusman

Há quase dois anos, quando cheguei do trabalho, vi sobre a mesa da minha sala um envelope com material de um artista baiano que, não sei como, conseguiu meu endereço e me enviou amostras do seu trabalho.
Jamais tinha ouvido falar de Luis Augusto Gouveia e tampouco de sua criação, Fala Menino! Mas, logo que li o material, decidi procurar saber mais sobre aquela turma de crianças.
Não pelo traço do autor, que é bastante simples, mas porque havia algo de diferente naquela turminha. Ela era diferente das que vemos tradicionalmente nos quadrinhos infantis!
Pra começar, quatro das crianças são portadoras de deficiências, ou "necessidades especiais", como define Luis Augusto. E suas tiras não se eximem de abordar, com naturalidade e bom-humor, temas como deficiência, separação de pais, entrada na adolescência, sexualidade, diferenças físicas e sociais e até morte.
O personagem principal da tira, Lucas, tem 10 anos e é mudo, mas, acredite, ele sempre consegue passar - e bem - o seu recado! Prova disso foi o reconhecimento do Unicef, que selecionou Fala Menino! para integrar o acervo do International Literacy Institute, da Universidade de Pensilvânia, nos EUA; e de Hank Ketcham, o criador do endiabrado Pimentinha, que classificou o trabalho de Luis Augusto como "Fabulous!" e até desenhou Lucas ao lado de Dennis.
No entanto, infelizmente, no Brasil, essa simpática turma não tem conseguido o espaço que merece. Apesar de toda batalha de Luis Augusto para divulgar sua criação nos “grandes centros”, os jornais e editoras das duas maiores capitais do País (São Paulo e Rio de Janeiro) ainda não abriram suas páginas para Lucas & Cia.
As razões? Quem sabe? Fala Menino! é um trabalho de qualidade, com muito potencial de marketing e grande perspectiva de sucesso. O que falta, então? Talvez que as pessoas abram seus olhos (e ouvidos) e descubram que, mesmo sem falar, um garotinho mudo pode ter muita coisa pra dizer!

Sidney Gusman é jornalista e escreve sobre quadrinhos,para diversos jornais e revistas do País, desde 1990.